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Conheça os games que (des)ensinam a namorar

Carlos Affonso

2017-10-20T18:04:00

17/10/2018 04h00

Personagens de game agora mandam emails e fazem você passar o dia no WhatsApp. (Foto: Mystic Messenger)

Dez da noite chegou a mensagem no celular: a sala do chat estava aberta. Será que vale a pena parar tudo o que se está fazendo e ir lá conversar? Afinal de contas, todos os amigos deveriam estar lá discutindo como foi o dia e quais seriam os planos para o final de semana. Parece importante, especialmente porque um deles pode ser mais do que um amigo. Além disso, vários deles mandaram e-mails recentemente e você nem respondeu. Será que eles vão entender que você andou meio sem tempo, mas que nada disso afeta a sua amizade?

Os amigos acima não são reais. Eles são personagens do Mystic Messenger, um date simulator coreano que se tornou uma febre nos últimos anos. Esse tipo de game está longe de ser novo e a fórmula geralmente não se altera: dentro de um certo período de tempo, o protagonista precisa desenvolver um relacionamento amoroso com um (ou mais) personagens do jogo. Essas relações serão mais intensas quanto mais você conhecer os personagens e interagir com eles.

Alguns elementos estão mudando na forma pela qual os date simulators são jogados e como eles afetam a vida do outro lado da tela. Os games dos anos noventa pareciam muito mais uma visual novel (no estilo "escolha a sua aventura"). O jogador apenas interagia no momento de escolha sobre qual rumo tomar na história. A depender da resposta o jogo direcionava o protagonista para uma trilha diferente no enredo. Gradativamente a dinâmica foi se alterando e uma lógica de construção de personagem se tornou quase onipresente, muita inspirada nos jogos de role-playing (RPG).

Cada garota(o) do jogo apenas se interessaria pelo protagonista se ele desenvolvesse algumas habilidades específicas, como o físico, o charme ou o intelecto, por exemplo. Lançado em 1995, o jogo True Love permitia ao jogador escolher de início um estereotipo como esportista, intelectual ou playboy, cada qual oferecendo vantagens ou desvantagens na construção dos atributos. O playboy começava com uma boa pontuação no quesito "estilo", mas tinha um nível sofrível da habilidade "estudo". A arte imita a vida.

"Não vamos colocar meta. Vamos deixar a meta aberta, mas, quando atingirmos a meta, vamos dobrar a meta"(Foto: LovePlus)

Como o tempo do jogo é geralmente finito, caberia então ao jogador escolher qual atributo priorizar para conquistar o objeto do seu afeto. Em dias divididos entre manhã, tarde e noite, é preciso ter uma estratégia para garantir o desenvolvimento das habilidades ao mesmo tempo em que se procura seguir a(o) garota(o) desejada(o). Só com um nível específico de certo atributo que cenas especiais com os personagens são desbloqueadas. Não existe modo mais direto de "gamificar" os relacionamentos.

As histórias também foram se tornando cada vez mais complexas. O enredo padrão geralmente girava ao redor de um estudante que é transferido para uma nova escola (que mais se parece com um harém, gênero famoso nas animações japonesas). Esse ambiente, é claro, estaria repleto de personagens com os quais o protagonista poderia se relacionar.

Em True Love, o jogador vive os seus três últimos meses de escola. A passagem entre vida escolar e universitária também aparece nas duas versões do game francês Amor Doce ("Amour Sucré"), voltado para o público feminino. A primeira acompanha a protagonista durante seu tempo na Sweet Amoris High School. Já a segunda versão lida com os conflitos típicos da vida universitária, como ter uma amiga indiana que quer fazer Direito Internacional, é cheia de tatuagens de rena e pulseiras de miçanga (ela é de Humanas!) e que no meio da história se revela pansexual. Quem nunca?

Pais solteiros variados e disponíveis. Tem pai-vampiro, pai-ursão e pai-com-casaquinho-top (Foto: Dream Daddy).

Mais recentemente a expansão dos argumentos e dos cenários nos date simulators começou a explorar diversas formas de sexualidade. No jogo Dream Daddy, por exemplo, o protagonista se muda para uma nova cidade com a sua filha e ali vai buscar o seu novo amor dentre os vários outros pais solteiros disponíveis. Os candidatos vão de um oriental bombado que vive na academia até o diretor da escola que nutre uma paixão secreta por luta-livre.

Pássaros também têm dúvidas sobre relacionamentos (Foto: Hatoful Boyfriend)

Algumas vezes a criatividade parece não conhecer fronteiras e os date simulators se transformam em uma experiência surreal. No jogo Hatoful Boyfriend, que se passa em uma versão alternativa da Terra, o protagonista é o único ser humano em uma escola povoada por pombos inteligentes. Sim, pombos que falam. O objetivo do game é desenvolver um relacionamento afetivo com a ave que você desejar. O seu amigo de infância é um pombo-comum, mas várias outras espécies, como a rola-carpideira (que não sai da biblioteca) e a codorniz (no papel de professora) compõem o elenco. O final da trama é surpreendente.

"Publique-se, registre-se e cumpra-se" (Foto: My Girlfriend is the President)

Em tempos eleitorais, vale ainda lembrar do jogo My Girlfriend is the President, no qual o interesse romântico do protagonista é a sua vizinha, Yukino Ohama (não confundir Ohama com Obama). Ela assume o governo logo após um acidente envolvendo alienígenas que destrói todas as lideranças políticas anteriores. A garota tem um dispositivo de lavagem cerebral instalado em seu corpo que lhe confere poderes sobre todos os eleitores, garantindo assim grande aprovação popular sem precisar recorrer ao apoio do Centrão ou à disseminação de fake news no WhatsApp.

Date simulators e o futuro do afeto

Para além dos date simulators bizarros, é importante pensar em como esses jogos trabalham a própria noção de afeto. A habilidade necessária para vencer esses games não é a velocidade com a qual se mata inimigos ou a destreza para solucionar enigmas. Grande parte das vezes, o segredo do sucesso em um simulador de romance é saber administrar o tempo e conhecer os interesses do personagem desejado (ou pegar um guia na Internet com as respostas certas para os diálogos com as personagens).

O preconceito que esse tipo de game desperta não é trivial. Será que os jovens que passam tempo jogando esses simuladores aprendem alguma coisa sobre romance ou sobre relações humanas? Enquanto alguns argumentam que eles ensinam a se importar com os outros, a procurar saber o que interessa a terceiros, por outro existe enorme crítica à versão simplista com a qual os relacionamentos são retratados. Nem tinha como ser diferente.

Alguns jogadores ficam tão imersos no ambiente do game que passam a ter dificuldade em separar o jogo da vida real. Aqui entram em cena algumas características dos novos date simulators que parecem efetivamente cruzar a linha entre realidade e fantasia.

As três personagens de LovePlus

Dez anos atrás, o jogo LovePlus inovou a propor um novo tratamento sobre a ideia de tempo. Se geralmente os jogos transcorriam em um período determinado, como dois ou três meses (dentro do jogo), LovePlus começou a se conectar com o transcurso do tempo na vida real. Geralmente os date simulators terminam quando o protagonista consegue conquistar o personagem de sua escolha (e vivem o seu final feliz). Em LovePlus essa é apenas a primeira metade do jogo. Depois de conquistar a garota escolhida, o jogador passa a conviver com ela por um tempo indeterminado. A cada dia ele escolhe o que fazer com a sua namorada virtual e, quanto mais joga, novos itens, cenários e diálogos são desbloqueados. O seu relacionamento passa então a durar o tempo que o jogador quiser. Não é de se espantar que foi justamente com uma personagem do jogo LovePlus que um japonês se "casou". Nas diversas entrevistas concedidas pela parte humana do casal, não faltaram referências ao fato de que o relacionamento era estável, fiel e duradouro.

A era do WhatsApp e dos aplicativos de mensagem instantânea já foi captada pelos date simulators. Em Mystic Messenger, os personagens mandam mensagens o dia todo para o jogador. Em horários específicos, a sala de chat com os personagens é aberta. Como o game dura apenas onze dias (reais), o jogador deve escolher o quanto ele vai se dedicar. A noção de tempo é tão sofisticada que quando um chat abre logo depois da hora do almoço os personagens perguntam se você já almoçou. Caso a resposta seja negativa se prepare para um sermão sobre a sua saúde e conselhos sobre a rotina que você está levando. Amigos reais podem ser menos atenciosos.

O lançamento de Pokemon Go revolucionou o mercado de games para o celular ao incorporar o elemento espacial na jogabilidade. Não deve demorar para que os date simulators, além de sincronizar com o tempo real, passem também a usar de forma criativa a geo-localização do usuário, criando cenas que apenas são destravadas se o jogador se deslocar para ir ao encontro dos personagens. Essa seria mais uma barreira a ser quebrada entre a realidade e a ficção. Isso sem falar na clara evolução apresentada pelos games em realidade virtual.

"O que aconteceu na praia fica na praia". Não vai demorar para os simuladores incorporarem os mapas das cidades e as cenas exigirem o deslocamento para locais reais (Foto: True Love)

Games são naturalmente imersivos. Mas eles são ainda mais quando conseguem mexer com os nossos sentimentos. Em especial, quando o afeto está envolvido, o tempo gasto no jogo tende a crescer. Você passa a se importar com os personagens e querer passar mais tempo com eles. Ao incorporar noções de espaço e de tempo reais, os date simulators estão se tornando cada vez mais complexos.

Será então que esses jogos ensinam alguma habilidade que possa ser transportada para o mundo real? Uma questão delicada que existe nos date simulators, e que também pode ser verificada na dinâmica com robôs em geral, é a sensação de controle que confere ao usuário. Esse controle, se por um lado confere a segurança para testar formas de se relacionar, por outro parece distante da forma pela qual se formam relacionamentos reais. "O amor não é um robô programado" – adverte Gilberto Santa Rosa, el caballero de la salsa.

Por mais que existam progressos nítidos na forma pela qual os personagens de date simulators interagem com o jogador, ainda estamos distantes de uma comunicação natural. Se já existe hoje o risco de uma confusão entre o real e a ficção, esse desafio só tende a aumentar. Justamente por isso, mais do que criar teorias sobre o uso finalístico dos simulares como treinamentos para relações sociais, vale explorar como eles podem ser um campo cada vez mais fértil para entendermos a nossa relação com o digital e a virtualização dos relacionamentos.

Usando um simulador de romance para criticar os simuladores de romance (Foto: Super Patriotic Dating Simulator)

Uma forma curiosa de levantar esse debate é usar os próprios date simulators para criticar os seus esteriótipos e a visão hiper-sexualizada do mundo. Uma campanha no Kickstarter procurou levantar fundos para o desenvolvimento de um simulador de romance polêmico. Em Super Patriotic Dating Simulator a protagonista é uma espiã americana de 19 anos que se infiltra no grupo Estado Islâmico para descobrir os seus segredos e derrubar a organização. Para alcançar o seu objetivo ela deve se relacionar com os integrantes do ISIS, descobrindo as suas personalidades e preferências. A criadora revelou que a ideia do jogo era satirizar a sexualização dos simuladores e lidar com visões conflitantes envolvendo "a América, o Oriente Médio e seu clitóris".

Se os date simulators ensinam ou não sobre relacionamentos, o debate está em aberto. Independentemente da resposta, o sucesso estrondoso do gênero, que cada vez mais ganha adeptos ocidentais, pode revelar muito sobre a nossa visão de mundo e sobre a forma pela qual queremos nos relacionar no futuro. Os personagens são fictícios, mas os sentimentos que eles despertam são bem reais. Quanto mais os jogos assumirem controle do espaço e do tempo da vida fora da tela, mais difícil será manter essa separação.

Essa é a segunda parte da nossa série sobre o futuro do afeto e novas tecnologias. Na primeira parte falamos sobre a teoria do vale da estranheza e os robôs sexuais. A seguir, vamos explorar os limites do marketing baseado em afeto e como as nossas emoções podem ser identificadas por dispositivos inteligentes. Tudo no melhor estilo "Desculpa ai, Dave, mas não estaremos abrindo essa porta."

Sobre o autor

Carlos Affonso é Diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio) e professor da Faculdade de Direito da UERJ.

Sobre o blog

A Internet e as novas tecnologias estão transformando as nossas vidas. Mas quem decide se a rede será um instrumento de liberdade ou de controle? Esse é um blog dedicado a explorar os impactos da inovação tecnológica, sempre de olho nos desafios nacionais e na experiência de diferentes países em tentar regular uma rede global. As fronteiras da tecnologia você lê aqui.