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O “Desafio dos 10 anos” é mesmo uma armadilha?

Carlos Affonso

16/01/2019 16h37

A internet está cismada com o desafio dos 10 anos ("10 years challenge"). Para quem não sabe, a nova moda consiste em postar nas redes sociais uma foto de 2009 e outra de 2019, lado a lado, relevando assim o quanto a pessoa mudou. Muita gente resolveu entrar na brincadeira (menos a Anitta).

Surgiu então a suspeita de que esse desafio pudesse ser uma armadilha. A lebre foi levantada por um artigo da Kate O'Neill na Wired. Segundo a autora, ao postar as duas fotos o usuário das redes sociais estaria facilitando o treinamento de softwares de reconhecimento facial, entregando padrões de envelhecimento que poderiam ser usados para que as máquinas fiquem cada vez melhores em reconhecer rostos e até mesmo prever como a pessoa vai envelhecer.

Será que a paranoia com o desafio dos 10 anos tem algum fundamento?

A resposta passa por duas outras perguntas. Será que esse conjunto de fotos de perfis de redes sociais é necessário para que uma empresa treine seu algoritmo de reconhecimento facial? Além disso, esse conjunto de fotos é bom para fazer esse tipo de treinamento?

Várias empresas usam aplicações de reconhecimento facial em seus produtos. O Google emprega a identificação de rostos no Google Fotos, assim como a Apple em seus celulares e computadores. Até ai não existe novidade. O próprio Facebook, desde 2017, usa reconhecimento facial para identificar quem é quem nas fotos que são postadas na plataforma. Então por que essa preocupação agora?

Se a sua neura é com o que o Facebook poderia fazer com as fotos do desafio, você não tem com o que se preocupar.

A empresa já tem acesso às suas fotos na rede social e já pode usá-las para alimentar o algoritmo. Não vai ser você colar as duas lado a lado que vai fazer o trabalho dos softwares da empresa mais fácil ou mais difícil. As fotos do desafio não são necessárias para que o Facebook melhore as suas ferramentas.

Mas será que o conjunto de fotos de todo mundo que está participando da brincadeira forma uma base de dados boa para se treinar algoritmos de reconhecimento facial?

A resposta, de novo, parece ser não. Primeiro porque nem todo mundo posta fotos de seus rostos como sendo o retrato que ilustra o seu perfil na rede social. No meio de várias faces humanas você vai encontrar desenhos, paisagens, mensagens e fotos do pet. Caso a foto seja mesmo do rosto da pessoa, será que ela é realmente do ano correspondente? Isso pode ser importante para a precisão dos algoritmos que seriam treinados com essa base de dados.

Além disso, na última década se tornaram populares os filtros nas fotos digitais (obrigado, Instagram!), que podem dificultar a identificação, além do próprio fato de que as selfies estão cada vez mais distorcendo a realidade do rosto humano.

Como falamos na semana passada, isso acontece tanto nas câmeras de celulares Android como nos novos iPhones, que estão suavizando marcas de expressão. Então o que aparece na foto de perfil não necessariamente é como a pessoa se parece na vida real.

Tudo isso ajuda a entender que o conjunto de fotos do desafio dos 10 anos pode não ser a melhor base de dados para se treinar um algoritmo de reconhecimento facial, especialmente se o foco é identificar padrões de envelhecimento.

Por outro lado, isso não quer dizer que a suspeita levantada sobre a brincadeira não tenha um fundo de verdade, ou pelo menos que ela não nos ensine uma ou duas lições.

Dizer que a base de dados não é necessária ou que ela não é boa para treinar reconhecimento facial e padrões envelhecimento não significa dizer que ninguém possa tentar compilar esses dados e usá-los para os mais diversos fins.

Vale lembrar que as fotos do perfil no Facebook são, por regra, conteúdos públicos que podem ser acessados por qualquer um. Da mesma forma, ao usar hashtags que identificam o desafio (como #2009vs2019) a pessoa está facilitando a agregação das postagens.

Um efeito salutar que se pode tirar da inquietação que varreu a internet é forçar todo mundo a pensar duas vezes sobre o que é feito com aquilo que se posta nas redes sociais. Grande parte das vezes, as plataformas deixam claro em seus termos de uso que elas poderão usar as fotos que você posta para várias finalidades, inclusive comerciais.

O Brasil ainda não tem uma cultura estabelecida de proteção de dados pessoais, embora uma lei geral sobre o tema tenha sido aprovada em 2018. Novos escândalos de vazamentos de dados vêm ajudando a construir essa consciência, mas ainda estamos longe de equilibrar o respeito aos dados pessoais como integrantes da personalidade de seu titular, de um lado, com as possíveis aplicações econômicas que podem ser extraídas do seu tratamento, de outro.

Uma segunda lição que a suspeita sobre o desafio desperta é a reflexão sobre as "pegadas digitais" que deixamos para trás na Internet. Ao buscar uma foto de 2009 para participar da brincadeira, muitas pessoas podem ter sido forçadas a revisitar as suas postagens feitas há dez anos atrás. Essa é uma excelente oportunidade para revisar esse conteúdo e apagar o que não faz mais sentido.

Faça esse exercício e dê uma lida nas suas postagens de 2009. Vai ser difícil não encontrar algo que mereça ser apagado ou publicações que você nem mesmo se lembra de um dia ter feito. O passado (e a Kelly Key) nos recordam que com o tempo sempre amadurecemos.

Então, será que o desafio dos 10 anos é mesmo uma armadilha feita para treinar algoritmos de reconhecimento facial? Parece que não, mas essa comoção toda ainda pode nos ensinar importantes lições sobre proteção dos dados pessoais e colocar um pouco de juízo na cabeça de quem posta sem pensar.

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Sobre o autor

Carlos Affonso é Diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio) e professor da Faculdade de Direito da UERJ.

Sobre o blog

A Internet e as novas tecnologias estão transformando as nossas vidas. Mas quem decide se a rede será um instrumento de liberdade ou de controle? Esse é um blog dedicado a explorar os impactos da inovação tecnológica, sempre de olho nos desafios nacionais e na experiência de diferentes países em tentar regular uma rede global. As fronteiras da tecnologia você lê aqui.