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Sopa de morcego exemplifica a desinformação e xenofobia no caso coronavírus

Carlos Affonso

04/02/2020 04h00

O que você sabe sobre o novo coronavírus? O que causou a sua disseminação? Quais são os seus sintomas? Quais países foram os mais afetados? Existe prognóstico de se desenvolver uma vacina?

Grandes são as chances de que as suas respostas para as perguntas acima vieram de informações obtidas por meio da imprensa na última semana. Ao largo dos telejornais, programas de rádio e da imprensa escrita, a internet também se tornou um ponto focal para a informação (e para a desinformação) sobre o novo vírus.

Muito já se falou sobre os inúmeros boatos que estão circulando nas redes sobre o coronavirus, como a sua origem em um laboratório chinês, o seu uso para fins militares e métodos pouco ortodoxos de cura. Podemos até dizer que depois da disseminação biológica do vírus, uma segunda onda – agora de desinformação – veio a reboque.

Como se lidar com a desinformação não fosse complicado o suficiente, os últimos dias parecem consolidar uma terceira reação que, igualmente complexa, segue o rastilho de pólvora que só a ameaça de uma grande epidemia global pode deixar: a xenofobia e o racismo contra asiáticos e, em especial, contra chineses.

O assunto não é novo, já que durante a crise da síndrome respiratória aguda grave (SARS) em 2003, um surto de xenofobia contra asiáticos também se seguiu. O que mudou de lá para cá? Com o avanço das redes sociais ficou muito mais fácil espalhar mensagens de ódio contra uma etnia, disseminar informações falsas e com isso reforçar nas pessoas a ideia de que a simples presença de um chinês ao seu lado pode ser um risco.

Começaram a aparecer relatos de lojas em Seul exibindo cartazes proibindo a entrada de chineses. Na cidade de Toronto, onde vivem 300 mil pessoas com clara ascendência chinesa, uma vereadora alertou para que "as pessoas não se deixem levar pela xenofobia e pelo racismo" e que, em situações como essa, "é fácil buscar um culpado."

Ainda não se sabe exatamente como se iniciou a disseminação do vírus, mas assim que apareceram relatos ligando a sua eclosão ao consumo de morcegos como alimento– o que parece extremamente exótico para os nossos padrões -, as redes parecem ter encontrado um culpado.

Um dos vídeos que mais ganhou notoriedade retrata uma chinesa tomando uma sopa de morcego. A mulher que aparece na gravação foi alvo de diversas ameaças. Ela revelou que o vídeo foi feito em 2017 nas ilhas Palau, o que não a impediu de receber diversas mensagens ligando o seu comportamento à disseminação do vírus.

Um repórter canadense tirou uma foto com o seu barbeiro (que estava usando uma máscara descartável) e logo em seguida tuitou: "espero que hoje eu só tenha ganhado um corte de cabelo". A reação negativa fez com que ele apagasse a postagem e pedisse desculpas.


Vale se colocar no lugar do outro. Será que você gostaria de ser evitado na rua, barrado nos lugares e, na melhor das hipóteses, aturar piadas ruins por conta daquilo que se é? Infelizmente as redes não estão ajudando a conter uma onda de pânico alicerçada no instinto natural de sobrevivência.

No Brasil, onde cerca de 1% da população se declara de origem asiática ("amarelos"), segundo dados do IBGE, a mesma reação começa a aparecer. Uma estudante de Direito da UFRJ, descendente de japoneses, foi xingada de "chinesa porca" no metrô do Rio de Janeiro. No WhatsApp, grupos de chineses que vivem no Brasil questionam se devem usar máscaras descartáveis ao sair da rua ou se a medida pode acabar assustando ainda mais as pessoas.

Existe ainda um fator curioso na onda de xenofobia gerada pelo vírus que está relacionada diretamente aos hábitos alimentares de asiáticos e ao costume na região de se usar máscaras para evitar contaminações. Por um lado, ocidentais não têm o mesmo hábito de uso de máscaras descartáveis em locais públicos como se vê mais frequentemente entre asiáticos.

Além disso, o fato de se comer morcegos também virou um debate por si só, com pessoas na internet questionando os hábitos alimentares de asiáticos. Não sei dizer o quanto morcegos são parte integrante do cardápio regular de cada país da região, mas é fato que, para grande parte das pessoas, existe uma dissociação entre a comida que vai no prato e o animal em si do qual ela deriva.

Quantas vezes você pensa no boi ou no porco quando come um bife à parmegiana ou um prato de carne suína? A compra nos supermercados de partes da carne já fatiada também acaba fazendo com que, para algumas pessoas, o ato de ver alguém comendo um animal como um todo pareça repugnante. Ainda mais sendo o bicho em questão pouco usual por essas bandas.

Sendo assim, vamos assistindo a três disseminações do coronavírus: a biológica, a informacional e a relacional. Essa última, acaba fazendo com que a gente se questione sobre como nos informamos sobre o que acontece no mundo, refletindo e aplicando o que se sabe e o que sente ao nos relacionarmos com os que estão em nossa volta. Se olharmos com cuidado, podemos acabar percebendo que, com atitudes preconceituosas e nem sempre bem informadas, acabamos agravando a situação. Até onde sabemos o vírus do preconceito e da desinformação não vem do morcego.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Carlos Affonso é Diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio) e professor da Faculdade de Direito da UERJ.

Sobre o blog

A Internet e as novas tecnologias estão transformando as nossas vidas. Mas quem decide se a rede será um instrumento de liberdade ou de controle? Esse é um blog dedicado a explorar os impactos da inovação tecnológica, sempre de olho nos desafios nacionais e na experiência de diferentes países em tentar regular uma rede global. As fronteiras da tecnologia você lê aqui.

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