PUBLICIDADE
Topo

O que se sabe sobre os disparos em massa no WhatsApp durante as eleições?

Carlos Affonso

17/01/2020 14h55

 

Pixabay

O UOL reportou que a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) das Fake News, instaurada no Congresso Nacional, identificou os números de telefone que parecem ter sido responsáveis pelo maior volume de disparo em massa de mensagens no WhatsApp durante as eleições de 2018.

Como a CPMI chegou a esses números? O que se sabe sobre o disparo em massa de mensagens durante o período eleitoral? E o que resta por saber? Aqui vale esclarecer alguns pontos desse assunto para lá de controvertido e refletir sobre quais podem ser os próximos passos da investigação.

  1. Como a CPMI chegou a esses números de telefone?

O levantamento da Comissão foi feito em cima de documentos entregues às autoridades pelo próprio WhatsApp em novembro de 2019. Segundo informou a empresa, foram banidas 400 mil contas no Brasil durante o período eleitoral. O WhatsApp proíbe o uso do aplicativo para o envio em massa ou automatizado de mensagens, como os spams que recebemos nos e-mails ou por SMS.

  1. Como o WhatsApp sabia o que essas contas estavam fazendo se as mensagens são criptografadas?

A empresa não precisou ver o conteúdo das mensagens para cancelar as contas. Através de aprendizado de máquina é possível reconhecer padrões que violam os termos de uso do aplicativo e assim identificar uma conta que se encaixe nesses padrões.

Em um relatório sobre o combate ao envio massivo de mensagens e a criação de contas automatizadas, a empresa esclarece que:

"Para contas que concluem o registro, avaliamos como elas se comportam em tempo real. Todas as mensagens são criptografadas de ponta a ponta, o que significa que o WhatsApp não pode ver o conteúdo das mensagens que passam pelo nosso sistema, embora possamos analisar a frequência da atividade da conta."

Então a empresa não estava vendo o conteúdo das mensagens, mas sim o comportamento do titular da conta. O sinal mais óbvio de que a conta está sendo operada por um robô é o envio de mensagens em uma velocidade e com uma frequência que superam a capacidade humana. Mas não são apenas esses os fatores que a empresa observa para avaliar as contas. O mesmo relatório explica:

"Usuários normais operam de maneira relativamente lenta no WhatsApp, tocando em mensagens uma de cada vez ou ocasionalmente encaminhando conteúdo. A intensidade da atividade do usuário pode fornecer um sinal de que as contas estão abusando do WhatsApp. Por exemplo, uma conta registrada cinco minutos antes de tentar enviar 100 mensagens em 15 segundos é quase certo estar envolvido em abuso, como é uma conta que tenta criar rapidamente dezenas de grupos ou adicionar milhares de usuários a uma série de grupos existentes. Nós proibimos estas contas imediatamente e automaticamente. Em situações menos óbvias, uma nova conta pode enviar uma mensagem para dezenas de destinatários que não possuem o remetente em seus contatos. Este pode ser o começo de um ataque de spam, ou pode ser um usuário inocente simplesmente contando aos contatos sobre um novo número de telefone. Nesses casos, consideramos informações históricas (por exemplo, quão suspeito era o seu registro) para separar comportamento anormal – mas inócuo – do usuário. Em suma, nossos sistemas de detecção avaliam centenas de fatores para interromper o abuso."

Das 400 mil contas banidas, 55 mil apresentaram um comportamento anormal, o que poderia indicar que estavam sendo operadas por robôs. Segundo reportagem do UOL, 24 contas acabaram respondendo pelo maior volume de disparos.

  1. O que diferencia as 24 contas que concentraram os disparos das demais?

Esse é um ponto interessante para entender como funciona o sistema de identificação de abusos no WhatsApp. Será que, se não fossem canceladas, as demais contas poderiam gerar um volume de mensagens compatíveis com as 24 contas que se tornaram o foco das investigações?

A pergunta que faz Pablo Ortellado é bastante pertinente: "O que fizeram as outras 399 mil contas? Foram derrubadas logo que começaram a disparar? Como essas 24 contornaram os sistemas de identificação?"

Até agora não sabemos o motivo dessas contas terem prosperado e as demais terem sido canceladas antes de atingir o mesmo volume de mensagens. É muito provável que a empresa não dê esclarecimentos públicos detalhados sobre o fato até para não entregar o jogo para quem abusar da plataforma. Todavia, para quem pesquisa o comportamento nas redes e segurança digital, essa é uma pergunta relevante.

  1. Já se sabe quem são os responsáveis pelas contas?

Já se sabe quais são os números de telefone usados para criar contas no WhatsApp e os IPs (Internet Protocol) relacionados às suas atividades. Com base nesses dados é possível solicitar que a empresa de telefonia móvel informem dados da conta e para qual dispositivo o IP estava alocado em certo dia e hora.

O que já foi revelado na imprensa é que as contas estavam associadas a números dos Estados Unidos, Vietnã, Inglaterra e Brasil. Com base nos IPs já se conseguiu perceber que as mensagens foram disparadas do Brasil.

  1. Esses dados comprovam que o resultado das eleição foi manipulado?

Não. As investigações estão sendo determinantes para que se possa entender como ocorreram os disparos em massa. Caso comprovados, e avançando a investigação sobre quem pagou e quem se beneficiou, eles constituem infração eleitoral e podem levar até mesmo, em situação extrema, à cassação da chapa vencedora e demais punições aos envolvidos.

Mas vale lembrar que a comprovação da existência dos disparos por si só não explica o seu impacto no eleitorado. Ainda há muito para ser compreendido sobre a repercussão do envio em massa de mensagens e como o eleitor realmente se deixou sensibilizar pelo seu conteúdo.

Parece equivocado chegar à conclusão de que se houve disparo em massa de mensagens, o resultado da eleição necessariamente seria outro sem a sua existência. A energia das investigações deve estar voltada para a identificação ou não de infrações eleitorais. O impacto dessas mensagens no eleitor é um assunto que transcende a análise jurídica dos fatos investigados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Carlos Affonso é Diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio) e professor da Faculdade de Direito da UERJ.

Sobre o blog

A Internet e as novas tecnologias estão transformando as nossas vidas. Mas quem decide se a rede será um instrumento de liberdade ou de controle? Esse é um blog dedicado a explorar os impactos da inovação tecnológica, sempre de olho nos desafios nacionais e na experiência de diferentes países em tentar regular uma rede global. As fronteiras da tecnologia você lê aqui.

Tecfront