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Se Deus não joga dados, será que ele joga Cartola FC?

Carlos Affonso

23/12/2019 04h00

Gabigol marcou dois gols na vitória do Santos contra o Paraná por 3×1 na quinta rodada do Brasileirão de 2018. Ao sair de campo, um repórter perguntou sobre a pontuação do atacante no fantasy Cartola FC, que havia sido reduzida por conta de seis passes errados e um cartão amarelo. O jogador respondeu na lata: "Isso é chato pra caramba! Todo mundo fica comentando isso aí."

A relação dos atletas profissionais com os jogos de fantasy merece mais atenção. Até que ponto a nota no fantasy importa para o jogador? Será que ele sabe o quanto tem gente torcendo para ele chutar ao gol ao invés de cruzar na área simplesmente porque isso vale mais no score do jogo virtual?

O universo paralelo do fantasy pega apenas o que lhe interessa do mundo real: as regras do esporte, as estatísticas e o elenco dos times. Todo o resto é, na melhor das hipóteses, um simulacro de realidade: torcedores fanáticos escalam em seus times virtuais jogadores que atuam por clubes rivais. Quantos vascaínos vibraram com a pontuação de jogadores do Flamengo na edição do Cartola FC desse ano? Quantos corinthianos escalaram a contragosto jogadores do Palmeiras?

E quantos craques do futebol fantasy nem tão decisivos assim são na vida real? Basta ser produtivo em um dos fundamentos que mais conferem pontos no game que o atleta passa a ser um mito no esporte virtual.

Se existe um momento em que as fronteiras entre o jogo real e o fantasy se misturam é na eventualidade de uma contusão de um jogador importante durante a partida. Quando justamente aquele atleta em que você depositou todas as suas esperanças de larga pontuação sai de campo, o fator humano entra em cena: de um lado existe a preocupação com o jogador, de outro fica a raiva pela perda de pontos e a queda na classificação do game.

Eu senti um frio na espinha quando o Dalvin Cook, running back do Minnesota Vikings, caiu no gramado chorando de dor depois de uma contusão em um jogo pela 15ª rodada do campeonato 2019-2020 da National Football League (NFL), a liga profissional de futebol americano. Não torço pelos Vikings – embora ache engraçado isso do seu grito de guerra ser "Skol!" – mas estava contando com o bom desempenho do Cook para ganhar a semifinal da liga de fantasy do escritório. Sem ele já era.

Jogar o fantasy de qualquer esporte parece cada vez mais com brincar de Deus. Seja no futebol ou no basquete, em uma liga brasileira, americana ou europeia, a gamificação do esporte gera um interesse crescente. E com ele chegam os investimentos em tecnologia, os contratos de licenciamento e as apostas em dinheiro. Nesse ambiente cada vez mais completo, o usuário se transforma em um técnico quase onisciente, que tudo vê e que tudo sabe, que pode contratar, demitir, trocar e vender jogadores como se fossem sacos de farinha. Não é difícil perceber como o fator humano pode se perder nessa confusão de números, estatísticas, sentimentos e rivalidades.

Na 14ª rodada dessa temporada da NFL, Josh Jacobs, running back dos Raiders, se machucou durante uma partida que tinha tudo para render uma excelente pontuação. A sua saída do campo acabou enterrando muitos times de fantasy. Alguns "técnicos" virtuais foram logo nas redes sociais reclamar com o jogador, dizendo que por conta dele seus times tinham perdido no fantasy. Ele não conversou e tuitou: "olha, eu não me importo com o seu time de fantasy, com os seus pontos, com nada dessa porcaria."

Esse foi mais um caso que mostrou como as pessoas estão levando longe demais a virtualização do esporte. No Brasil, o site Reclame Aqui recebe frequentes queixas de torcedores sobre a pontuação atribuída pelo game a jogadas em particular. O fundamento "defesa difícil" é um dos mais questionados. Sente o drama:

Os jogos de fantasy vieram para ficar. Se por um lado é muito divertido poder escalar jogadores e acompanhar o seu rendimento nos jogos reais, é também importante entender como esses aplicativos vem transformando a relação dos torcedores com o esporte. Quem joga fantasy sabe o quanto esses games podem demandar na análise de estatísticas e na constante busca por notícias sobre se um jogador vai entrar em campo ou ficar no banco de reservas.

No final das contas, a extrema virtualização do fantasy pode levar a gente a refletir sobre como seria estar na pele do jogador que vive as glórias e as mazelas de ser cobrado não apenas pelo desempenho no esporte real, mas também no virtual? Se você acha que isso não é incômodo só porque os caras ganham bem, faça o teste: e se a sua vida virasse um fantasy?

Já imaginou se alguém estivesse apostando em você durante a sua rotina de trabalho ou de estudos? Se você fosse apenas uma peça no time escalado por um técnico anônimo que espera, com base em estatísticas (claro!), que você chegue pontualmente no trabalho (+5 pontos), que beba água oito vezes por dia (+8 pontos), que gabarite a prova (+10 pontos), que entregue os relatórios no prazo (+20 pontos) e etc.

Já imaginou se esse mesmo técnico ficasse revoltado com você por ter falhado em qualquer dessas atividades e pudesse ir nas redes sociais reclamar do seu desempenho? Aposto que você também ia dizer que não se importa com o fantasy do seu técnico e essa pontuação estúpida. Que obviamente o que vale mais é a sua vida e não uma virtualização algorítmica que pontua cada atividade do seu dia a dia.

Se você parar para pensar, a sua vida toda poderia ser observada, calculada e transformada em uma pontuação. Segundo Einstein, Deus não joga dados. Mas será que ele joga fantasy?

Sobre o autor

Carlos Affonso é Diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio) e professor da Faculdade de Direito da UERJ.

Sobre o blog

A Internet e as novas tecnologias estão transformando as nossas vidas. Mas quem decide se a rede será um instrumento de liberdade ou de controle? Esse é um blog dedicado a explorar os impactos da inovação tecnológica, sempre de olho nos desafios nacionais e na experiência de diferentes países em tentar regular uma rede global. As fronteiras da tecnologia você lê aqui.