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Game de Pokémon mostra que estão de olho nos seus dados enquanto você dorme

Carlos Affonso

03/07/2019 04h00

"O sono da razão cria monstrinhos" – Francisco Goya (1799).

"Pokémon Sleep", o novo jogo da franquia de monstrinhos, deve elevar o debate sobre como as empresas de tecnologia transformam o gerenciamento, ou "gamificação", do sono em algo valioso. Será que, em vez de estimular um hábito de vida saudável, não estaríamos empurrando os jogadores para uma instrumentalização do sono com efeitos negativos?

O sono é a próxima fronteira. A tecnologia já tornou possível transformar em dados a nossa rotina diária. Os passos, os cliques, as mensagens trocadas e o deslocamento ao longo do dia já estão mapeados e um punhado de empresas (e governos) analisam e compartilham essas informações.

Chegamos até aqui, em grande parte, graças ao celular e aos aplicativos nele embarcados que acompanham nossa jornada desde a hora em que acordamos até quando voltamos a dormir. "Da cama viestes, para a cama retornarás" parece ser a profecia moderna que cumprimos todos os dias.

Mas o que acontece enquanto dormimos? Será que a coleta de dados se encerra quando fechamos os olhos? Até a Billie Eilish, estrela pop de 2019, pergunta no título do seu disco: "Quando todo mundo vai dormir, para onde a gente vai?"

A Nintendo já tem a resposta: a gente vai caçar Pokémon! No começo do ano, em uma coletiva de imprensa, a empresa japonesa apresentou "Pokémon Sleep", o novo jogo da franquia de monstrinhos que agora poderão ser capturados durante o sono. A ideia é "transformar o sono em entretenimento", revelou a empresa.

Ainda não se sabe exatamente como o jogo vai funcionar, mas tudo indica que a Nintendo vai lançar um dispositivo que, usando o acelerômetro típico de um celular ou de uma pulseira Fitbit, mede a quantidade e a qualidade do sono do usuário. A gigante japonesa procura assim estimular que as pessoas durmam mais, obtendo recompensas por isso.

Será que a "gamificação" do sono é mesmo uma boa ideia? Ou será que, em vez de estimular um hábito de vida saudável, a empresa não estaria empurrando os jogadores para uma instrumentalização do sono que pode ter efeitos negativos? Dá para imaginar que algumas pessoas vão dormir pior pensando que, se acordar muito durante a noite, as suas recompensas digitais pela manhã serão menores.

O mesmo vale para quem resolver roubar no jogo e tomar remédio para dormir em busca de uma recompensa maior. Será que as horas de sono também poderão ser compartilhadas com os amigos, estimulando assim uma rivalidade sobre quem dorme melhor?

Não é preciso querer caçar monstrinhos no sono para ter os seus hábitos noturnos vigiados. Muita gente já usa aplicativos nos celulares, como o Sleep Cycle, para monitorar a quantidade e a qualidade de sono. A pulseira Fitbit lançou um tempo atrás uma enorme pesquisa sobre hábitos de sono extraídos justamente dos usuários que dormem com a pulseira ativada.

Mesmo antes desse mundo digital o sono já era visto como um oportunidade não para a extração de dados, mas sim para a inserção de informações. Quem se lembra dos cursos de inglês do método sleep learning? A sedução do aprender dormindo era e ainda é uma forma de procurar aproveitar as horas "desperdiçadas" de sono.

Enquanto a comprovação científica do "sleep learning" não vem, fica a advertência do episódio de "Friends" em que Rachel empresta para Chandler uma fita cassete com falas motivacionais para cessação do tabagismo. O áudio fica repetindo que "você é uma mulher forte e confiante que não precisa fumar". Depois de tanto escutar a fita enquanto dormia, Chandler efetivamente parou com o cigarro, mas também passou a se comportar como uma mulher.

O sono virou mesmo um campo de disputa. Nos shoppings se amontam os vendedores fantasiados de médico, com os seus jalecos brancos, a espera de clientes. Nas livrarias, lançamentos em série prometem revolucionar a sua vida se você dormir do jeito certo. Em tempos cada vez mais corridos, o sono vai se afirmando como uma forma de salvação pessoal, uma escapada temporária dos problemas do dia-a-dia.

Mas quanto tempo dura essa escapada? Será que você está conseguindo dormir oito horas por dia? E quem foi que disse mesmo que o sono de oito horas seguidas é o ideal? A história parece revelar que a noção do sono contínuo de oito horas é uma invenção moderna, uma acomodação à época em que a luz elétrica invadiu a noite, permitindo que as nossas atividades corriqueiras entrassem pela noite afora.

A ausência de iluminação farta no período noturno fazia com que as pessoas fossem naturalmente dormir mais cedo. Com esse período prolongado de escuridão, era comum que o sono não fosse contínuo por dez ou onze horas a fio, mas sim dividido. O sono bifásico (ou polifásico) parecia ser a regra; tanto é assim que existem expressões como "primeiro" e "segundo sono". Em algumas línguas, até o período entre os sonos também recebia uma denominação específica. Nesses intervalos as pessoas faziam diversas atividades, desde refletir sobre os sonhos recém-encerrados até coisas mais mundanas. Era nesse intervalo que poetas criavam e, para os mais supersticiosos, que as assombrações vinham ter com os vivos. Com o tempo, essas noções foram se perdendo com o desaparecimento do sono fracionado.

Ao se perder a noção do intervalo entre os sonos, o momento de reflexão sobrou então para o despertar. "Dormiu bem?" é a primeira coisa que perguntamos quando se divide o sono com alguém na mesma cama ou na mesma casa. Poucas perguntas são tão íntimas quando feitas pela manhã. A modernidade tratou de criar um outro hábito bastante íntimo na cerimônia do despertar: aquela conferida nas mensagens não lidas e nas redes sociais.

Já estamos ficando acostumados a olhar para o celular como sendo a primeira (ou uma das primeiras) atividades do dia. A armadilha já está então montada para os aplicativos que, como "Pokémon Sleep", vão recompensar as suas horas e a qualidade de sono. As perguntas sobre "quantas horas eu dormi?" e "quanto tempo de sono profundo?" serão acompanhadas de "qual será que foi a recompensa que eu ganhei?".

Não tem jeito. Você pode nunca ter pensando nisso, mas o seu sono é o próximo alvo. Enquanto empresas e especialistas procuram impor a noção de que um sono contínuo de oito horas é uma condição para uma vida melhor, que sem ele você perderá memória, arruinará a sua saúde e fatalmente morrerá mais cedo, o mundo impõe cada vez mais atividades que vão depredando a qualidade do sono. Contas para pagar, desemprego, deslocamentos longos, prazos a serem cumpridos e todas as demais agruras do dia-a-dia não serão resolvidos com aplicativos que recompensem a pessoa por dormir mais. Ao contrário, eles podem tornar a experiência do sono até mais estressante.

É quase hipócrita impor sobre as pessoas que vivem uma rotina corrida (por necessidade e não escolha, veja bem) que elas também tenham oito horas ininterruptas de sono. Como se o não atingimento dessa meta fosse uma escolha ou mesmo culpa delas. Pode esperar que o volume do debate sobre o sono só vai aumentar e a tecnologia, que parece ajudar, pode acabar tornando tudo ainda mais complicado. Durma-se com um barulho desses!

Sobre o autor

Carlos Affonso é Diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio) e professor da Faculdade de Direito da UERJ.

Sobre o blog

A Internet e as novas tecnologias estão transformando as nossas vidas. Mas quem decide se a rede será um instrumento de liberdade ou de controle? Esse é um blog dedicado a explorar os impactos da inovação tecnológica, sempre de olho nos desafios nacionais e na experiência de diferentes países em tentar regular uma rede global. As fronteiras da tecnologia você lê aqui.

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