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Para cobrar em dezembro! Conheça as previsões tecnológicas para 2019

Carlos Affonso

02/01/2019 04h00

Todo ano começa igual: as pessoas se vestem de branco, param para ver fogos de artifícios e os especialistas de plantão fazem as suas previsões sobre o novo ano. No campo da tecnologia, tão identificado com o futuro e com a inovação, não poderia ser diferente.

Mas acontece que essas previsões podem ser furadas. Quase todo ano na lista das previsões tecnológicas tem alguém que aposta que o ano será marcado pela ascensão da roupa conectada (os chamados wearables). A "internet para vestir" já virou piada nas pautas de futurologia e o seu maior exemplo é o Google Glass.

Existiu um tempo em que o Google Glass parecia apontar para uma nova direção na forma como nos conectamos. Ele parecia ser o acessório que finalmente libertaria a internet do celular, fazendo com que ela fosse acessada de forma intuitiva e através de uma peça de vestuário. Enquanto os relógios inteligentes ainda caminham de forma mais vagarosa, os óculos prometiam dar um salto adiante.

Teve até bar nos Estados Unidos proibindo as pessoas de entrarem nele vestindo os óculos, alegando que ele violaria a privacidade dos demais frequentadores. Vale lembrar que os óculos nem haviam sido lançados.

Nada disso aconteceu. Em 2018 ninguém acessou a internet usando os óculos, nem a sua camisa estava conectada. O Google Glass, olhando em retrospecto, pode ganhar novas serventias, como o uso em telemedicina e na indústria, mas ele não gerou a revolução comercial que se esperava. Assim como o Segway não transformou a mobilidade humana (mas aliviou a vida dos seguranças de shopping center), o destino do Google Glass deve ser inteiramente diferente daquele imaginado por seus criadores.

Isso não quer dizer que toda previsão seja furada, nem que a tentativa de se sugerir o que vai ocorrer no futuro não seja divertida. Correndo todos os riscos associados à empreitada, aqui vão algumas previsões para 2019. Elas não foram obtidas depois de qualquer processo de meditação, observação celeste ou divinação babilônica. Então não me responsabilizo pelos erros, nem pelos acertos.

1) Teremos importantes casos de vazamentos de dados pessoais. Essa previsão se encaixa na categoria "alguém importante vai morrer", "Donald Trump vai causar no Twitter" e "o Flamengo vai penar nas Libertadores". É uma certeza! Quanto mais aprendemos sobre a importância dos dados pessoais, mais escândalos envolvendo empresas e governos veem à tona. O Brasil aprovou em 2018 a sua Lei Geral de Proteção de Dados. Embora ela só entre em vigor em 2020, esperamos que as suas diretrizes comecem a ser adotadas, até como um processo gradativo de adequação tanto por parte do setor privado como do setor público.

2) Tomaremos menos decisões. E isso pode ser maravilhoso ou bem complicado. Uma faceta da expansão do uso de dados pessoais é a chamada customização da nossa experiência online. Com as empresas sabendo cada vez mais os nossos gostos, padrões de uso dos seus serviços e tendo acesso ao nosso calendário, agenda e afins, vai ser mais fácil que ações nos sejam automaticamente sugeridas. Toma aqui essa matéria que você vai querer ler; escuta aqui essa música que a gente sabe que você vai gostar; o seu compromisso é em 40 minutos, posso chamar um transporte? Em 2019 esteja preparado para confirmar muitas sugestões automatizadas.

3) Teremos mais exemplos sobre o uso positivo e negativo de inteligência artificial. Hoje em dia só se fala em inteligência artificial: como ela vai mudar a indústria, como vai tirar (e gerar) muitos empregos e como ela vai tornar várias atividades mais eficientes. Se por um lado ainda estamos longe da inteligência artificial dos filmes de ficção científica, em 2019 devemos ver mais exemplos de aplicação de IA em diferentes setores. Espere ler sobre como empresas mudaram as suas atividades com o desenvolvimento de inteligência artificial (e como a mesma foi usada para finalidades mais questionáveis). Justamente por isso vai ser cada vez mais importante entender como as aplicações de IA funcionam e como decisões automatizadas (as mesmas do item 2 acima) foram tomadas. O que não vai faltar em 2019 são reportagens mostrando que uma aplicação de inteligência artificial fez alguma coisa e os seus criadores não sabem explicar como ela chegou nesse resultado.

4) Quem vê cara, verá tudo. Em 2019 o seu rosto será escaneado. Se nos últimos anos a biometria com base na impressão digital foi trivializada, a tendência para esse ano é que o reconhecimento fácil seja a estrela do show. De um lado existe o imperativo de segurança pública, que faz com que governadores eleitos (como o do Rio de Janeiro) transformem o tema em pauta de campanha, prometendo a instalação de câmeras com reconhecimento facial em locais públicos. No âmbito privado, o cruzamento da vigilância de ambientes com base de dados de procurados pela polícia vai ficar cada vez mais comum. O tiro de misericórdia virá com a implantação do uso da face para acessar serviços básicos, como bancos e para fazer pagamentos em geral. Aliás, quem tem um novo iPhone já deu adeus à impressão digital e passou a desbloquear o telefone com o rosto.

5) Será o começo do fim dos smartphones? Muitas previsões apostam que em 2019 vai ficar mais claro que a era dos smartphones está acabando e, com isso, a internet começa a a se libertar dos celulares para ser acessada via outros dispositivos. Essa tendência geralmente vem combinada com a ascensão da chamada internet das coisas. Em 2018, por exemplo, a Apple decidiu não mais divulgar o números de smartphones vendidos, o que já sinalizaria para uma redução global no número de unidades fabricadas e vendidas. Sinceramente? Acho que essa previsão ainda tem muita cara de uma tendência exclusiva do primeiro mundo. O iPhone representa algo inteiramente diferente quando comparamos os EUA e o Brasil, por exemplo, sendo lá um smartphone bastante difundido e aqui quase um objeto de luxo. Além disso, a existência de outros dispositivos para acesso à funções da internet, como assistentes pessoais (Alexa e Google Home), ainda não explodiu em países em desenvolvimento, apesar de algum incremento do número de acesso via smart tvs (segundo a última pesquisa do IBGE). A internet das coisas vai crescer exponencialmente em 2019, mas para o usuário comum, a principal porta de entrada para acessar a rede ainda será o celular, em especial em países em desenvolvimento.

6) Usaremos menos Facebook e usaremos mais Facebook. Depois dos incidentes de segurança do Facebook e das controvérsias sobre proteção de dados pessoais em 2018, algumas pessoas optaram por encerrar a sua conta na rede social. Em 2019 o questionamento sobre a viabilidade de uma rede social gigantesca e de propósito geral, como é o Facebook, ainda estará no ar. As movimentações regulatórias (que serão objeto de um outro artigo sobre previsões para 2019) poderão atravessar essa conversa. De todo modo, se você parou de usar o Facebook e resolveu se dedicar mais ao WhatsApp e ao Instagram vale a lembrança: são todas empresas do mesmo grupo econômico, o que pode facilitar a troca de dados entre elas. Não tem muito tempo que a integração de dados entre WhatsApp e Facebook ganhou as páginas dos jornais. Sendo assim, em 2019 vai ter gente usando menos o Facebook e, ao mesmo tempo, usando mais o Facebook (ainda que através de outras empresas do grupo e seus respectivos apps). Correndo por fora, estão as redes sociais que podem oferecer um apelo específico (como foi o Musical.ly, fundido no TikTok).

7) A revolução do ouvido continua. Levando uma vida cada mais puxada, precisando prestar atenção em tudo que se vê, com as mãos ocupadas e os pés na correria, sobrou para o ouvido. 2018 foi um excelente ano para se descobrir novos podcasts e o formato pegou de vez. Veículos de mídia tradicional criaram suas versões e séries especiais, além de podcasts já consagrados passarem a fazer parte da dieta de informação de quem quer estar por dentro dos assuntos do momento ou de alguma área específica do conhecimento. Em 2019 a revolução do ouvido deve seguir adiante.

8) Veremos cada vez mais vídeos. A ascensão do vídeo como principal meio de comunicação não é necessariamente uma novidade, mas os últimos anos serviram para consolidar a mídia audiovisual como sendo o formato preferido para se informar, se divertir e para compartilhar informações. A cultura de influenciadores digitais nasce justamente dessa tendência. Em 2019, podemos esperar que as principais plataformas de vídeo vão apresentar novos recursos para buscar consolidar a sua posição no mercado, ao mesmo tempo em que novos aplicativos e sites de vídeo vão surgir. Nas redes sociais, os algoritmos já favorecem conteúdos em vídeo, o que só acelera esse movimento. Este blog ainda não virou vídeo porque o colunista não sabe que roupa vestir para aparecer na internet. Mais complicado do que previsões sobre a "internet vestível" é saber o que vestir na internet.

Feliz 2019!

Sobre o autor

Carlos Affonso é Diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio) e professor da Faculdade de Direito da UERJ.

Sobre o blog

A Internet e as novas tecnologias estão transformando as nossas vidas. Mas quem decide se a rede será um instrumento de liberdade ou de controle? Esse é um blog dedicado a explorar os impactos da inovação tecnológica, sempre de olho nos desafios nacionais e na experiência de diferentes países em tentar regular uma rede global. As fronteiras da tecnologia você lê aqui.