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Acabou o Amor? Twitter planeja acabar com o botão “curtir”

Carlos Affonso

2031-10-20T18:12:54

31/10/2018 12h54

O que está motivando o Twitter a cogitar a exclusão do botão curtir?

 

Primeiro vieram as estrelas. Os usuários do Twitter se acostumaram a clicar nelas para indicar que um tweet era "favorito". Depois vieram os corações, nos quais se clica para dizer que "curtiu" uma publicação. Quem não gosta de receber corações? Aparentemente, o próprio Twitter.

Em uma reunião recente, o CEO da empresa, Jack Dorsey, revelou que seus planos para eliminar todos os corações da plataforma. A ferramenta que permite "curtir" tweets seria removida. Mas qual é o motivo para essa decisão?

Desde as aparições em audiências públicas no Congresso norte-americano, a empresa vem afirmando que está em busca de uma forma de garantir que as conversas travadas na plataforma sejam mais saudáveis. Mas como a remoção do "curtir" ajudaria nisso?

Segundo a lógica explorada pelo próprio CEO da empresa, a existência do botão "curtir" acaba estimulando as pessoas a postar conteúdos que estimulem a curtida alheia. As pessoas passaram então a usar a plataforma com uma única estratégia: ganhar o seu coração. Nesse sentido, ao invés de conversar estaríamos apenas jogando para a plateia em busca de curtidas.

O diagnóstico pode não ser de todo equivocado, mas será que o botão curtir é mesmo o responsável pela ausência de verdadeiras conversas nessa e em outras plataformas? A revelação sobre os planos de eliminar os corações vem a público no momento em que as empresas de Internet estão sob pressão. Usuários vem alertando que as plataformas precisam desenvolver meios eficazes para banir conteúdos ilícitos, especialmente envolvendo ameaças e discurso de ódio.

Um caso recente ilustrou bem o problema. A jornalista Rochelle Ritchie foi ameaçada no Twitter por um usuário após aparecer em uma entrevista na rede de TV FoxNews. Ao reportar o comportamento do usuário à empresa, recebeu uma resposta dizendo que a plataforma não via motivos para remover os conteúdos ou punir o usuário.

Na semana passada, após vários pacotes contendo explosivos terem sido enviados para endereços de pessoas identificadas com o Partido Democrata, como o ex-presidente Barack Obama e a senadora Hillary Clinton, além da sede da CNN, descobriu-se que o remetente desses explosivos era Cesar Sayoc, o mesmo usuário do Twitter cujo comportamento foi denunciado na plataforma. A empresa pediu desculpas e afirmou que falhou ao não identificar o comportamento de Sayoc como sendo abusivo e que ele infringia os termos de uso da rede social.

Quanto mais usuários demandarem mais proteção, as empresas tenderão a desenvolver métodos de controle de conteúdos que ofendem as regras da plataforma. Não há nada de errado nisso, ao contrário. Todavia, usuários que tenham seus conteúdos ou contas removidos podem discordar dessas medidas. Insatisfeitos com o que identificam como censura, vários usuários, especialmente ligados a grupos de extrema-direita, acabaram migrando para outras plataformas após ter suas postagens ou contas excluídas. Esse movimento deu uma cara política a um debate que, na verdade, transcende as fronteiras político-partidárias: qual é o limite da expressão (dentro e fora da Internet) e como as plataformas podem atuar para garantir um debate saudável?

Outras redes sociais podem justamente aproveitar esse momento para crescer a partir dos usuários excluídos de plataformas mais estabelecidas. A Gab, por exemplo, surgiu justamente nesse cenário. Ela promete pouquíssima moderação sobre o conteúdo postado. Esse comportamento, que procura proteger a liberdade de expressão de modo quase absoluto, já rendeu à Gab uma suspensão na prestação de vários serviços (de pagamento à hospedagem) que acabaram tirando o site do ar.

O último incidente que levou à suspensão do site foi a descoberta de que o atirador que matou onze pessoas em uma sinagoga nos Estados Unidos tinha uma conta na rede social e que usualmente fazia postagens contra judeus. Pouco antes do ataque, ele postou uma mensagem em que dizia: "Eu não posso ficar sentado e ver o meu povo ser massacrado" e "Dane-se o seu ponto de vista, eu vou entrar agora!"

Na página em que exibe o aviso de que foi tirada do ar, o CEO da Gab, Andrew Torba, afirma que está trabalhando com as autoridades no caso, mas que o cancelamento dos serviços de pagamento, hospedagem e de suporte ao nome de domínio revela que a plataforma é "uma ameaça para a mídia e para a oligarquia do Vale do Silício". Em seu texto ele afirma que a mídia insiste em "apontar o dedo para uma rede social ao invés de focar no suposto atirador que sozinho deve responder por seus atos."

As plataformas hoje vivem um dilema: ou bem atuam para limpar os seus ambientes de discursos tóxicos (e com isso correm o risco de perder usuários insatisfeitos com esse controle) ou bem permitem esses discursos e com isso correm o risco de serem vistas como negligentes com ameaças e discursos de ódio. Não existe solução fácil e parece que, seja lá qual medida for implementada, as plataformas sempre vão desagradar a um ou a outro grupo.

Justamente por isso é cada vez mais importante entender quais são os critérios usados pelas plataformas para atuar na remoção de usuários e de conteúdos. Avisos lacônicos que pouco explicam os motivos de sua atuação jogam mais lenha na fogueira e atraem para as empresas mais repercussão negativa.

Nesse contexto cada vez mais difícil, acabar com o botão "curtir" parece uma medida nada relacionada com a demanda que vem dos usuários das plataformas. Há até quem peça para que se acabe com o retweet ao invés da curtida, já que seria o retweet (ou o "compartilhamento") o grande vilão da vez ao permitir a viralização de discursos ofensivos ou de notícias falsas.

O que seria do Twitter sem corações? Será que estaríamos melhor se estivéssemos contando estrelas? Vale refletir sobre o efeito desses botões e ferramentas na forma pela qual nós nos comunicamos nas mais diferentes plataformas. Será que o sumiço do botão curtir será o bastante mudar toda uma cultura de likes e joinhas? Ou será que já estamos tão acostumados a isso que vamos simplesmente inventar um outro jeito de distribuir e de receber a tão desejada aprovação?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Carlos Affonso é Diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio) e professor da Faculdade de Direito da UERJ.

Sobre o blog

A Internet e as novas tecnologias estão transformando as nossas vidas. Mas quem decide se a rede será um instrumento de liberdade ou de controle? Esse é um blog dedicado a explorar os impactos da inovação tecnológica, sempre de olho nos desafios nacionais e na experiência de diferentes países em tentar regular uma rede global. As fronteiras da tecnologia você lê aqui.