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10 pontos que mostram como a internet mudou as eleições em 2018

Carlos Affonso

10/10/2018 04h00

Passado o primeiro turno das Eleições 2018, é hora de fazer um balanço sobre como o uso da internet e das redes sociais mudou a cara das campanhas. O que deu certo e o que deu errado? Abaixo seguem as primeiras lições dessa disputa.

1. Vote no Meme!

Uma eleição tão curta como essa dificulta um debate mais profundo sobre programas de governo. Impulsionado pelas diversas redes sociais, o meme falou mais alto na internet. O pouco tempo de campanha também gerou uma disputa acirrada pela atenção do eleitor. Como se sobressair dentre tantas mensagens, postagens e vídeos falando sobre política? Chamando a atenção!

Isso vale tanto para as polêmicas como para os memes e vídeos curtos, feitos exatamente para serem visualizados de forma rápida e logo compartilhados. Em poucos segundos o meme passa a mensagem. Em tempos de atenção fragmentada, o candidato tem poucos segundos para fisgar o eleitor. O meme serve perfeitamente a esse propósito.

Quem se informou pelas redes sociais (e em especial pelo WhatsApp) acompanhou a eleição apenas pela lente dos memes. Lacrações e mitadas foram compartilhadas ferozmente, o que dificulta o diálogo e apenas replica a informação que interessa a um candidato.

A eleição também consagrou candidatos que se transformaram, eles mesmos, em um meme. Com financiamento de campanha reduzido, a candidatura do Cabo Daciolo à presidente ganhou votos por isso. Eleitores não alinhados às convicções dele deram seu voto a ele pela caricatura criada na internet. O voto não foi no programa ou em suas ideias. Foi naquele que clama "Glória a Deuxx!", come arco-íris, vai combater a URSAL e manda bem no rap.

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O fenômeno já havia aparecido em eleições passadas, com Lulinha Paz e Amor e Dilma Bolada, por exemplo. Agora, porém, foi intensificado com outras construções, como Bolsonaro Mito e Meirelles Geek. Candidatos podem propositadamente criar situações para virar meme ou até incorporar qualidades do personagem. Votar no meme pode ser um protesto (nos casos mais caricaturais) como também resultado de que criador e criatura não estão mais separados na cabeça do eleitor.

Vale lembrar que o cargo público pleiteado pelo candidato vai exigir dele mais do que se comunicar por memes. Quem vota com esse critério talvez não perceba que o dia-a-dia da política vai além das grandes sacadas narrativas e das frases de efeito.

2. Quem liga para o programa eleitoral?

Antes instrumento de barganha na formação de alianças, o tempo de televisão deixou de ser um fator de sucesso para a campanha. Essa eleição consagrou a internet e as redes sociais como formas efetivas de levar adiante a mensagem dos candidatos e de gerar engajamento.

No lugar de programas eleitorais super-produzidos entram grupos de WhatsApp e transmissões em tempo real. Essas ferramentas levam o candidato para perto do eleitor. O programa eleitoral na televisão não consegue essa interação.

3. Mas a TV não está morta!

É importante não confundir a perda de importância do programa eleitoral com o papel que a televisão desempenha na campanha. Uma parte relevante dos materiais que são divulgados nas redes sociais vem justamente de aparições dos principais candidatos na televisão. Entrevistas e debates acabaram gerando os vídeos mais curtidos e editados e ajudaram a construir a imagem do candidato. O mesmo vale para os picos de menções nas redes sociais, que não raramente coincidem com a aparição dos concorrentes em entrevistas ou debates.

4. Checagem de fatos pegou.

Com o aumento considerável de notícias falsas circulando nas redes sociais, as iniciativas de checagem de fatos ganharam um lugar de destaque no combate à desinformação. Vários dos principais veículos jornalísticos acabaram criando suas próprias ferramentas para esclarecer mentiras. No melhor estilo inception, teve até notícia falsa que se fazia passar por matéria de entidade de checagem de fatos. É o fake do fact checking dos fakes.

5. Menos debate, mais torcida.

Assim como na eleição nos Estados Unidos, as pessoas estão cada vez menos dispostas a ser confrontadas com fatos que contradizem a sua convicção política. Sai de cena o debate e entra a formação de verdadeiras torcidas organizadas. Essa foi uma eleição clubista: eleitores torceram para o seu time com pouca (ou nenhuma disposição) para entender os motivos que levam ao voto nos demais candidatos.

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Esse clima de "nós contra eles" leva a uma campanha agressiva. Um sinal claro dessa tendência são os vídeos de humilhação, geralmente os mais assistidos no YouTube e compartilhados nas redes sociais. "Fulano humilha Sicrano" é uma versão distorcida do que seria um debate. Não se está preocupado com a troca de argumentos, mas, sim, com a vitória que anula o outro.

6. Diferentes plataformas, diferentes desafios.

A eleição norte-americana foi tomada por propagandas direcionadas no Facebook que exploravam o condicionamento político do eleitor (vide o caso Cambridge Analytica e o referendo para a saída do Reino Unido da União Europeia). Também entraram em cena as contas automatizadas no Twitter. A partir dessas experiências, as plataformas criaram mecanismos para evitar que se repetisse o mesmo cenário no Brasil.

Depois de audiências realizadas no Congresso norte-americano e já de olho nas eleições que ocorrem nesse ano por lá, o Facebook implantou uma série de medidas para o pleito no Brasil, como ferramentas para denunciar fake news e mais transparência nas propagandas.

Porém, o protagonista dessa eleição foi o WhatsApp. Ao permitir a criação de grupos para disseminar informações sobre um candidato, o "zap" virou a central das eleições. Ali, circulou todo tipo de desinformação em grupos de pessoas que já não estavam dispostos a ouvir o outro lado. A bolha em que muitos eleitores estiveram lança um desafio: como levar informação mais diversa a quem só vive as eleições dentro de grupos que compartilham as mesmas pautas e visão de mundo?

Cada plataforma tem a sua linguagem própria e privilegiam uma ou outra forma de comunicação. As campanhas que souberam explorar as peculiaridades de cada rede social acabaram atingindo o eleitor de forma mais eficiente.

7. Faltou educação digital

O Brasil ainda tem muito o que fazer para ajudar as pessoas a compreender informação recebida pelas redes sociais. Contribuiu para o enorme impacto das notícias falsas a pouca habilidade das pessoas para distinguir o que é real do que é fake. Iniciativas de checagem de fatos são um primeiro passo, mas os destinatários da desinformação também têm que contribuir e não passar adiante textos, fotos e vídeos falsos sem qualquer verificação prévia.

No mesmo sentido, a educação digital para combater notícias falsas não é só uma necessidade alheia. Cada um tem o dever – que cada vez mais parece um verdadeiro dever cívico – de ser um agente de educação digital nos grupos da família e em outros meios nos quais notícias falsas são compartilhadas. Omitir-se e deixar a desinformação se instalar faz cada um de nós corresponsável por uma eleição cada vez mais vulnerável à manipulação.

8. Esse eleitor é orgânico?

Uma das grandes apostas para essas eleições era a propaganda impulsionada (paga) nas redes sociais. Alguns dos casos de maior sucesso nessas eleições passaram longe da dinâmica de impulsionamento. O candidato Jair Bolsonaro, com uma rede de apoiadores no WhatsApp e no Facebook, alcançou enorme visibilidade com menos recursos para o impulsionamento de publicações do que outros candidatos. Existem algumas lições sobre o compartilhamento orgânico de informações que esse primeiro turno ensinou e que muitas campanhas vão precisar estudar.

9. O Poder Legislativo não é um grupo de WhatsApp.

Um desafio para muitos dos candidatos eleitos vai ser lidar com diferentes interesses e pontos de vista no Poder Legislativo. A atuação de um deputado ou senador depende da formação de alianças, da construção de consensos. Essa habilidade não é necessariamente cultivada ou estimulada em grupos de WhatsApp nos quais vigora um pensamento único. Vai ser importante que os eleitos saibam dialogar com representantes de outros campos políticos e que não exerçam seus cargos como se fossem apenas líderes de torcidas organizadas. O acirramento dos ânimos nessa campanha pode levar a esse resultado.

10. Ainda não acabou?

Na fila de votação, escutei uma pessoa na minha frente dizer que não aguentava mais essas eleições. "Quero voltar a usar o Facebook sem esse negócio de política", disse. Um senhor que estava do lado completou: "O Facebook tinha que tirar tudo de política da rede social. Que nem tira mulher pelada." Olha, sinto informar que a política é uma parte essencial de nossas vidas. É uma conquista da qual não devemos abrir mão poder escolher nossos representantes e ter todos os meios para se informar e debater suas propostas, inclusive por meio das redes sociais.

Internet e redes sociais vieram para mudar a cara das eleições. A renovação expressiva do Congresso Nacional está aí para demonstrar esse fato. Enquanto velhos conhecidos não conseguiram renovar seus mandatos, novas lideranças surgiram apoiadas pela força das redes. Não há como reverter o fato de que parte importante do processo eleitoral vai acontecer online.

Sobre o autor

Carlos Affonso é Diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio) e professor da Faculdade de Direito da UERJ.

Sobre o blog

A Internet e as novas tecnologias estão transformando as nossas vidas. Mas quem decide se a rede será um instrumento de liberdade ou de controle? Esse é um blog dedicado a explorar os impactos da inovação tecnológica, sempre de olho nos desafios nacionais e na experiência de diferentes países em tentar regular uma rede global. As fronteiras da tecnologia você lê aqui.