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O Museu Nacional poderia renascer na realidade virtual?

Carlos Affonso

05/09/2018 04h00

Foto: Peça da coleção egípcia do Museu Nacional, provavelmente perdida no incêndio.

O Brasil é um país virtual. Entenda como você quiser. Uns vão concordar porque o que lhes dá prazer é a destruição, é negar mesmo que o seu país exista. Outros, mais românticos, concordarão porque acreditam no Brasil como uma fantasia ou uma simulação de país. Ambos concordam em um ponto: dizer que o Brasil é um país virtual significa dizer que o Brasil não existe.

Acontece que o virtual não se opõe ao real. A ideia de que a realidade virtual é a negação da própria realidade, ou apenas a sua imitação, é bastante difundida. Mas o que será que significa ser virtual? Desde o latim medieval, virtualis se aproxima de uma noção de potência, de algo que ainda não é, mas que no futuro pode vir a ser.

Assim, a semente é uma árvore em potência: é uma árvore virtual. Em cada bebê, da mesma forma, existe um adulto virtual. Esse conceito de virtualidade como sendo oposto à atualidade (e não à realidade) é desenvolvido pelo filósofo francês Pierre Lévy. Para ele, as últimas décadas vem exigindo uma reformulação de conceitos como inteligência coletiva, cibercultura e virtualidade.

O incêndio que destruiu o acervo do Museu Nacional foi um duro golpe em nossa realidade. A mistura fatal de burocracia, descaso, falta de visão e soberba se juntou a uma visão de país na qual um acervo tão precioso pode ser queimado sem que nada de relevante aconteça. Nenhum ministro ou diretor implicado na tragédia pediu demissão. Até agora ninguém pediu desculpas. A culpa é do fogo.

Ali do lado, o Maracanã superfaturado e parcamente utilizado é real. O museu queimado também. Então começam a aparecer as soluções. Notícias aqui e ali mostram que várias peças do museu foram digitalizadas e podem ser reproduzidas em impressoras 3D. Fósseis de dinossauros continuarão a ser estudados em seus substitutos de plástico, resina ou outros materiais que nem de longe guardam a riqueza do original. É um pouco do que a tecnologia pode oferecer.

Ao mesmo tempo, campanhas de arrecadação de fotos apareceram na Internet. Um crowdsourcing de memórias amadoras para ajudar a recompor o acervo perdido. Mas o que vamos fazer com essa memória? Estranho que até agora ninguém sugeriu transformar o Museu Nacional em realidade virtual. Em tempos em que parece que a inteligência artificial resolve tudo e a realidade virtual ganha as mais variadas utilidades, não espantaria se o museu renascesse como virtualidade.

Mas isso faz sentido? Nessa altura do campeonato, em que as causas dessa tragédia estão escancaradas, apostar em um renascimento online mais parece um discurso de salvacionismo digital. Nenhuma solução de reprodução online do acervo superará a experiência de estar frente a frente à peça original perdida no incêndio. Por mais camadas de informação digital que sejam adicionadas e sensações estimuladas pela realidade virtual, nada apaga o crime que dissipou o acervo.

O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro disse que, nesse momento de raiva, melhor seria deixar o prédio em ruínas como um marco de nosso descaminho. A aposta às cegas na realidade virtual ainda teria o impacto de passar um verniz sobre as causas da tragédia. Ou será que as falas vãs dos nossos ministros e políticos também serão renderizadas e exibidas em 3D?

O futuro é virtual, ele é a busca constante pela atualização do que era meramente potência. Quando se repete mecanicamente que "o Brasil é o país futuro" confirmamos a ideia de que hoje somos apenas a potência do que virá pela frente. O Brasil, país do futuro, é assim um país virtual. Não porque ele não exista, mas porque ele ainda virá a ser.

Nesse futuro, dadas as condições de hoje, as futuras gerações não terão um Museu Nacional. São crianças e adolescentes que não estarão frente a frente com múmias, dinossauros e peças de arte que contam a história da humanidade. Podemos até reconstruí-las em impressoras 3D e lançá-las na realidade virtual, mas isso não recupera a imersiva experiência de perda que todos sentimos ao ver um museu popular queimar.

Em um país que é para sempre virtual, a importância que se dá à cultura e à educação também segue o mesmo destino. Ninguém é responsável por resolver os problemas do presente porque a solução está sempre no futuro. Enquanto isso, nas ruínas do Museu, o Rio aguarda a inauguração de mais uma cracolândia ou de qualquer outra forma de espaço que – tão paradoxal como ser o purgatório da beleza e do caos – faça conviver ocupação e abandono.

Sobre o autor

Carlos Affonso é Diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio) e professor da Faculdade de Direito da UERJ.

Sobre o blog

A Internet e as novas tecnologias estão transformando as nossas vidas. Mas quem decide se a rede será um instrumento de liberdade ou de controle? Esse é um blog dedicado a explorar os impactos da inovação tecnológica, sempre de olho nos desafios nacionais e na experiência de diferentes países em tentar regular uma rede global. As fronteiras da tecnologia você lê aqui.