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Memes podem influenciar uma eleição?

Carlos Affonso

22/08/2018 04h00

(Parodiando Caetano: "Quem vê tantos memes?" A resposta é: um número cada vez maior de eleitores)

 

"Nação brasileira"! No estúdio de televisão, o candidato à Presidência da República, Cabo Daciolo, vai começar a falar. Do outro lado da tela, muitos brasileiros aguardam ansiosos. Será que o candidato vai revelar mais detalhes sobre o Plano Ursal? Será que vai ler as passagens do Livro de Jeremias que mencionam o Brasil? Será que vai falar em línguas estranhas?

O resultado é quase instantâneo. Na velocidade de dois F5 (ou qualquer outra tecla de refresh), lá estão os memes que ilustram a fala do candidato. Ursinho carinhoso vira mascote da Ursal, personagem do anime Naruto repete as leituras bíblicas e o Cabo Daciolo aparece na capa de disco do Radiohead. "What the hell am I doing here?" – seria uma pergunta e uma ironia.

A disputa pela atenção durante o período eleitoral é feroz. Bordões alarmistas como "Abra o olho, povo brasileiro!" disputam espaço com analogias sensualizantes como "50 tons de Temer". No espetáculo do debate, a expectativa de um "ao vivão" ou material para subir na hashtag dominam a experiência. É uma verdadeira competição pela sua atenção.

Memes são grandes meios de comunicação, criticando, satirizando ou promovendo uma ideia por meio de imagens, GIFs ou vídeos curtos. Em pouquíssimo tempo (porque na internet, assim como na vida, não temos tempo a perder), o meme oferece conteúdo de consumo instantâneo e de compartilhamento garantido.

Fica então a pergunta: será que memes podem influenciar uma eleição? Meme vira voto? Se por um lado ainda é cedo para apontar o grau de relevância das redes sociais e dos apps de mensagem instantânea nessas eleições, parece inegável que algum destaque eles terão.

Redes sociais e apps de mensagem são o território fértil dos memes. Ali, mais poderosos do que qualquer discurso são as imagens, GIFs e vídeos curtos que chegam a milhões de pessoas. Em uma eleição curta e com o tempo de televisão tão concentrado em dois candidatos, a internet se torna o novo espaço a ser conquistado, especialmente pelos candidatos com pouco tempo na tela da TV. E como garantir que o candidato vai circular nas redes sociais? A resposta passa por impulsionamento de conteúdo, militância (orgânica ou nem tanto) devidamente organizada e, é claro, muitos memes.

O seu candidato é "memeficável"? Com pouco tempo de televisão, os postulantes ao cargo mais importante da República tem que aproveitar toda chance de aparecer para o grande público e ali garantir uma presença marcante. Se ela puder ser transformada em meme ou em um vídeo viral, tanto melhor. De certa forma, o veículo condicionou a mensagem. Mais importante do que um raciocínio concatenado é criar uma controvérsia, gerar um fato que estimule o compartilhamento e que possa ser facilmente sintetizado.

Candidatos performáticos nasceram para isso. A ascensão dos memes só os fortalece. Para os demais, sempre existe a opção de ficar repetindo bordões e/ou criar uma persona. Surpreendentemente, no mundo das redes sociais até os deslizes podem ser retrabalhados para construir a imagem de candidatos mais humanos, gente como a gente. Transformar arrogância em humor e despreparo em simpatia e informalidade é uma forma de arte.

Diferentes pessoas votam por diferentes motivos: empatia, esperança, revolta, oportunidade e utilidade. E quem vota no meme? Vota por qual motivo? A arquitetura das plataformas vai condicionando assim a forma pela qual se faz política. Não perceber essa mudança pode ser fatal para as campanhas.

Se nem todos os candidatos nasceram para o meme, o abuso da ferramenta pode ser igualmente prejudicial. O uso de gírias com as quais o candidato não tem familiaridade ou postagens que o(a) retratam como sendo mais descolado(a) do que ele(a) verdadeiramente é ficam na linha fina do constrangimento.

Desiludidos com os escândalos de corrupção, muitos brasileiros têm nos memes o seu único ponto de contato com a política. Essa é a janela pela qual ideias vão circular e opiniões serão formadas. Ninguém vai ganhar ou perder uma eleição por causa de memes da URSAL, mas o nível de atenção que o tema despertou e a profusão de materiais produzidos nas últimas semanas mostra o alcance dos memes. Se o cenário não aparece animador, também não há motivo para se correr para as montanhas. Até porque já tem um candidato fazendo memes por lá.

Sobre o autor

Carlos Affonso é Diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio) e professor da Faculdade de Direito da UERJ.

Sobre o blog

A Internet e as novas tecnologias estão transformando as nossas vidas. Mas quem decide se a rede será um instrumento de liberdade ou de controle? Esse é um blog dedicado a explorar os impactos da inovação tecnológica, sempre de olho nos desafios nacionais e na experiência de diferentes países em tentar regular uma rede global. As fronteiras da tecnologia você lê aqui.