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Um giro pelas tradições do país mais digital do mundo

Carlos Affonso

09/08/2018 16h27

(Foto: Tallinn, capital da Estônia, reúne tradições medievais e inovações digitais)

A seleção da Estônia joga um futebol bem feio. No basquete, os seus times não chegam aos pés da Lituânia. Mas existe um esporte no qual os estonianos são quase imbatíveis: o carregamento de esposas. Disputado anualmente na Finlândia, o Campeonato Mundial de Carregamento de Mulheres teve por onze edições consecutivas a vitória de um casal estoniano. Existe até mesmo um estilo de carregamento denominado "estoniano", no qual a mulher é levada nas costas pelo homem, mas seu corpo fica de cabeça para baixo, com as pernas em volta do pescoço do atleta.

Se você está se perguntando se isso é realmente um esporte, vale dar uma olhada nas regras da competição, que determinam o circuito que os competidores devem percorrer, o peso máximo da mulher (49 quilos) e a premiação, que usualmente é o peso da pessoa carregada em cerveja. A mulher carregada geralmente é a esposa, mas as regras permitem variações. Na competição britânica já houve inversão dos papéis.

A Estônia tem feito bonito em outras disputas, especialmente quando o tema é a digitalização da sociedade, conforme revela o especial do UOL. No índice da Comissão Europeia sobre Economia e Sociedade Digital, por exemplo, deu Estônia na cabeça. Nos últimos vinte anos o país vem investindo massivamente na forma pela qual os cidadãos podem interagir com o governo e com as empresas.

Em palestra no evento GovTech Brasil, o ex-presidente da Estônia, Toomas Ilves, traçou um panorama da verdadeira revolução digital empreendida no país, com identidade global, voto pela Internet e a redução do uso de papel pela burocracia estatal. Como dito pelo mesmo, na Estônia você apenas precisa ir a uma repartição pública em três ocasiões: para se casar, se divorciar ou para registrar a venda de um imóvel.

A Estônia sempre esteve na fronteira. Dada a sua localização estratégica, o território mudou de mãos pelo menos dez vezes nos últimos 800 anos. Uma mistura de soberanos dinamarqueses, cavaleiros teutônicos, nobres suecos, além do exército nazista e soviético já ocuparam o que hoje é a Estônia. Ao visitar o país, me lembro que estávamos em pé no meio de um nevoeiro nas ruínas do castelo de Toolse, a última guarnição da fronteira norte do Sacro Império Romano Germânico, quando o guia tentou resumir essa história em cinco minutos. Não deu muito certo.

Para quem espera encontrar a Estônia digital logo ao chegar no País, as ruas de sua charmosa capital, Tallinn, são uma surpresa. A cidade, assim como o país de um modo geral, respira as histórias e as tradições medievais que hoje atraem tantos turistas. A digitalização da rotina transforma a vida das pessoas e, pouco a pouco, também as cidades.

O turista menos atento pode passar dias em Tallinn sem perceber essa camada tecnológica. Basta, contudo, buscar uma conexão à Internet para perceber que existe uma rede wi-fi pública e aberta disponível em boa parte do centro histórico. É chegar perto do antigo prédio da prefeitura e se conectar. No alto da torre do prédio, zelando pela conexão, está uma estátua de bronze do Velho Tomás, que serve de cata-vento. Dizem que Tomás, de origem humilde, vencia com frequência os concursos de tiro-ao-alvo com besta. Foi então concedido ao jovem o direito de se tornar o guarda da torre por toda a vida. Depois de sua morte, as crianças que recebiam doces do guarda perguntavam onde estaria o velho Tomás. Para não ter que explicar o ocorrido, desde 1530 os pais podiam apontar para o alto da torre e dizer que o velho continua a proteger a cidade lá do alto. Eles não estavam mentindo.

Os turistas do passado eram menos amistosos. Dizem que a Tallinn medieval teve seus contornos lançados após a conquista de Valdemar II, rei dos dinamarqueses. Aliás, a própria bandeira da Dinamarca teria sido criada na Estônia, já que o rei, que estava perdendo a batalha, teria avistado um pano vermelho com uma cruz branca caindo do céu e, inspirado nessa imagem, teria conseguido conduzir seu exército à vitória sobre a população local.

Só para não perder o momento "fun with flags", vale lembrar que a bandeira da Estônia é composta por três linhas verticais: azul, preto e branco. A história local dá a entender que as cores representariam o céu, a terra e a neve. O meu guia disse que a bandeira deles é uma das poucas no mundo que pode ser retratada através de uma foto na natureza, com o céu azul, a terra negra e uma faixa de neve embaixo. Fiquei pensando que definitivamente não dá para fazer uma bandeira do Brasil assim ao natural. Os mexicanos podem ter mais sorte: basta uma águia morder uma cobra em cima de um cacto em um fundo branco com laterais verde e vermelho. Mais delicada é a situação da Argentina, que depende do sol ganhar dois olhos e uma boca.

Dizem que os dados são o novo petróleo. Antes da revolução digital, a exploração da riqueza mineral já movimentou muitos interesses na Estônia. Os nazistas procuraram extrair petróleo da região de Kohtla-Jarve, mas não tiveram sucesso. Ali também se desenvolveram depois da Segunda Guerra vários campos de exploração de xisto. Com o esgotamento das minas, a partir dos anos setenta, as cidades em volta da região foram sendo abandonadas.

Viivikronna, por exemplo, que já teve milhares de habitantes, hoje é uma cidade-fantasma. Ela inclusive está no topo da lista dos Nove Lugares Abandonados mais Legais da Estônia. Ao entrar em uma escola em ruínas disse ao guia que, se aquilo fosse um filme de terror, eu provavelmente seria o primeiro a morrer já que era o único latino do pequeno grupo que reunia basicamente europeus. O guia teve um ataque de riso e depois explicou que esse humor mórbido é o típico senso de humor que os estonianos apreciam. A piada nem era boa, então achei melhor não insistir.

Sobre a proteção de dados – esse novo petróleo – a Estônia adotou uma estratégia inovadora para se proteger de catástrofes ou ataques que pudessem inviabilizar o uso de dados. Foram criadas verdadeiras embaixadas digitais em outros países para armazenar back-ups dos dados dos cidadãos estonianos. Essa estratégia consolidou os laços diplomáticos e a primeira embaixada digital da Estônia foi criada em Luxemburgo. É cada vez mais importante saber onde os dados (pessoais ou não) estão sendo armazenados, não apenas para uma questão de custo, mas também para afirmar a jurisdição sobre os mesmos. A Estônia procurou com as embaixadas gerar maior proteção aos dados, mas outros países, como a Rússia, têm obrigado empresas estrangeiras a armazenar os dados de seus cidadãos em seus respectivos territórios. Esse fenômeno, chamado de localização forçada de dados, se levado adiante em vários países, pode até comprometer o caráter global da rede.

Por falar em Rússia, esse é um país cujos traços do tempo em que ocupou a Estônia ainda são bem visíveis. O turista não precisa ir muito longe: em um dos pontos mais altos da capital estoniana o governo russo mandou construir em 1900 uma igreja ortodoxa, batizada em homenagem a Alexandre Nevsky, herói (e santo) russo que derrotou os suecos e os alemães no século XIII. O recado sobre quem mandava era bem claro.

Para tensões mais recentes, a cidade de Narva, na fronteira entre a Estônia e a Rússia, é um prato cheio. Um dos monumentos mais famosos da cidade é uma estátua de um leão, doado pelos suecos para comemorar a vitória dos mesmos contra os russos, liberando a cidade na Grande Guerra do Norte, em 1700. Na base do monumento está escrito "A Suécia se lembra". Guerra do Norte + Sweden Remembers = George Martin deve ter passado por aqui.

Mas as coisas são sempre mais complicadas do que parecem. Uma parte expressiva da população da cidade de Narva é russa. Depois da anexação da Crimeia, não faltam especulações sobre o futuro. Até porque, não muito longe do leão sueco, está uma outra estátua de leão, perto da ponte que liga Estônia e Rússia. Ali, algo de familiar chama a atenção quando se olha de frente para o rosto desse leão mais moderno. Não são poucos que acham que ele estranhamente se parece com Vladimir Putin.

Um ponto sempre lembrado no cancioneiro de êxitos da Estônia digital é o fato de que, além da digitalização dos serviços públicos, foi lá que surgiu também o Skype, um dos softwares mais utilizados para comunicação. O que nem todo mundo sabe é que o Skype nasceu das experiências que os seus inventores tiveram anteriormente com outro software muito conhecido (e também de sua autoria), o Kazaa, que permitia o download de arquivos em uma rede peer-to-peer.

Essa constante transformação que a tecnologia hoje possibilita marca a trajetória de um país que revolucionou o seu papel no cenário global. Misturando tradições medievais e tecnologia de ponta, a Estônia mira alto. Tão alto como a torre do Velho Tomás.

Sobre o autor

Carlos Affonso é Diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio) e professor da Faculdade de Direito da UERJ.

Sobre o blog

A Internet e as novas tecnologias estão transformando as nossas vidas. Mas quem decide se a rede será um instrumento de liberdade ou de controle? Esse é um blog dedicado a explorar os impactos da inovação tecnológica, sempre de olho nos desafios nacionais e na experiência de diferentes países em tentar regular uma rede global. As fronteiras da tecnologia você lê aqui.