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Islândia tem Vikings, Bitcoin e Futebol

Carlos Affonso

27/06/2018 04h00

Futebol e Bitcoin são duas paixões islandesas (embora vikings não usassem elmos com chifres, você sabe)

Vamos tirar logo o bode da sala (ou o lobo gigante, seguindo a mitologia nórdica): essa coluna é sobre tecnologia, mas aproveitando o clima de Copa, por que não misturar história, internet e futebol? Essa edição do TecFront na Copa é dedicada à simpática seleção da Islândia, uma nação de mineradores de bitcoin que tristemente deixou a Copa da Rússia.

Locutores esportivos não são conhecidos por sua erudição histórica. Na semifinal da Copa Sul-Americana de 2017, quando o Flamengo superou o Junior Barranquilla graças a defesas milagrosas do goleiro César, o narrador da Globo gritava a plenos pulmões: “Defendeu, Césaaar! O imperadoor!”. Bom, Júlio César nunca foi imperador, tá?

Nessa Copa do Mundo não faltaram referências à Islândia como sendo a “seleção viking”. Narradores, para conferir mais emoção, criavam embates fantasiosos como vikings contra nigerianos ou mesmo vikings contra argentinos. Um verdadeiro choque de civilizações. Mas vale lembrar que, além da Islândia, existe uma outra seleção viking nesse Mundial: a Dinamarca. Foi de lá que saíram muitos dos colonizadores que se estabeleceram na Islândia e tocaram o terror na Europa medieval.

Mas que relação tem os vikings com a internet ou com o futebol? Vamos por partes. Sabe de onde vem o nome da tecnologia bluetooth? Ela é uma homenagem que o seu criador fez ao rei viking Harold BlueTooth, que, além de ter um dente podre azulado, conseguiu unir diversos grupos na Dinamarca debaixo do seu comando (da mesma forma que o bluetooth congrega vários dispositivos diferentes). O fato dessa tecnologia destruir a bateria do seu celular também deve ter sido inspirada nas incursões de pilhagem e destruição vikings.

A Islândia foi ocupada em uma dessas incursões. Conquistadores nórdicos chegaram na ilha a partir do século IX. Um dos primeiros a chegar, e o responsável por dar o nome à ilha, foi Hrafna-Flóki, que ancorou próximo de onde fica hoje a capital do país, Reykjavík. Foi justamente esse primeiro colonizador da Islândia que inspirou o personagem Flóki, da série Vikings.

Dentre os vikings que passaram pela ilha, poucos são tão lembrados como Érico, o Vermelho. O viking tinha o estranho hábito de resolver as suas discussões com o assassinato da parte contrária e terminava sendo exilado por seus crimes. A sua família já havia sido expulsa da Noruega e ele, já na Islândia, repetiu a dose.

Durante o seu exílio, Érico navegou para o que chamou de Terra Verde, ou Green Land (hoje conhecida por Groelândia, mas não exatamente por suas terras verdes). O nome que o viking deu para a Groelândia era um golpe. Prometendo terras menos frias e mais verdes ele conseguiu um punhado de famílias para acompanhá-lo na viagem. Foi de lá que o seu filho, Leif Ericson, navegou para descobrir a América do Norte. Sim, os vikings descobriram a América. Cerca de quinhentos anos antes de Colombo. Infelizmente não conseguiram lá se instalar devido a muitos fatores, incluindo embates com os índios nativos. Não é fanfic.

Os crimes de Érico, o Vermelho, e seu exílio na Groelândia não foram tão espetaculares como a fuga de Sindri Stefánsson, acusado na Islândia de furtar seiscentos servidores dedicados para a mineração de bitcoin e avaliados em US$ 2 milhões. Mineração de bitcoin é a atividade que ajuda a processar as transações com a criptomoeda. Cada vez mais ela precisa de um potencial de processamento maior e aumenta também o consumo de energia das máquinas dedicadas à atividade. Como na Islândia faz muito frio (e o custo da energia é bem baixo), os servidores não precisam de tanto resfriamento artificial, reduzindo ainda mais o custo de se minerar bitcoin no país.

Sindri estava detido em uma prisão de segurança mínima até ser elucidado o seu envolvimento com o furto de servidores. As celas da prisão contam com TV de tela plana e os detentos podem usar o celular, jogar futebol e ganham um trocado cuidando do galinheiro. Aproveitando uma dúvida sobre o prazo de expiração de sua detenção, o islandês fugiu pela janela, pegou uma carona até o aeroporto, embarcou em um voo para Estocolmo (no qual estava também a Primeira-Ministra da Islândia, voando em classe econômica), de lá pegou um trem para a Holanda e encontrou um amigo que resolveu postar uma foto no Instagram com a hastag #teamSindri. Ele foi detido logo em seguida.

Agora com a eliminação da Copa, o noticiário islandês pode voltar a se dedicar ao caso do suposto criminoso e sua fuga espetacular. Toda a atenção do país no último mês esteve dedicada ao Mundial. O fato de um número expressivo dos jogadores terem outra profissão que não apenas a dedicação ao futebol também ganhou grande repercussão na mídia internacional: o goleiro é cineasta e o técnico tem um consultório dentário.

Outro fato que chamou atenção foi o uso de palmas sincronizadas na torcida (chamada de “palmas vikings”, claro) para fazer barulho nos estádios. As palmas foram inventadas na Escócia, na verdade, mas isso é outro assunto. Os islandeses são loucos por futebol. Tanto que na partida inaugural da seleção na Copa apenas 0,4% da população não estava vendo o jogo contra a Argentina.

Além da impressionante marca, fica uma última pergunta: se 99,6% dos islandeses estava vendo o jogo, quem estava tomando conta dos servidores de mineração de bitcoin?? Está explicado.

Sobre o autor

Carlos Affonso é Diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio) e professor da Faculdade de Direito da UERJ.

Sobre o blog

A Internet e as novas tecnologias estão transformando as nossas vidas. Mas quem decide se a rede será um instrumento de liberdade ou de controle? Esse é um blog dedicado a explorar os impactos da inovação tecnológica, sempre de olho nos desafios nacionais e na experiência de diferentes países em tentar regular uma rede global. As fronteiras da tecnologia você lê aqui.