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A dor da separação é genuína, mas você precisa largar o celular

Carlos Affonso

12/06/2018 04h00

A dor da separação é genuína, mas você precisa largar o celular.

 

Quantas vezes você desbloqueou o seu celular hoje? Quantos toques deu na tela? Quantos aplicativos abriu? Quanto tempo ficou em cada um deles? A resposta é fácil: você não faz ideia. E se soubesse? Será que os números estarrecedores de tempo gasto olhando para a tela do celular fariam com que você mudasse os seus hábitos?

A Apple anunciou recentemente que o iOS12, o sistema operacional para dispositivos móveis da empresa, virá com um novo aplicativo embarcado. Batizado de “Screen Time” (“tempo de tela”) ele permitirá, dentre outras coisas, saber quanto tempo você passou em cada aplicativo ao longo do dia. O Google também anunciou que a nova versão do seu sistema operacional móvel vai trazer um painel de controle sobre o uso de apps.

Cada vez mais as empresas percebem que o uso dos seus dispositivos e aplicativos se tornou uma parte tão essencial da vida das pessoas que é preciso dar mais transparência sobre como eles são utilizados. O tempo que você passa no celular usando a Internet para mandar mensagens, postar fotos e vídeos, além de se perder em jogos cada vez mais viciantes (só mais um turno!) é uma questão de saúde.

Nas últimas décadas os aplicativos de maior sucesso foram os que conseguiram prender o usuário por mais tempo. E como eles fazem isso? A estratégia mais óbvia é chamando a sua atenção. Uma vez capturada a atenção, o objetivo passa a ser o oferecimento de pequenas recompensas que tornem a experiência de uso do app mais positiva. Na melhor das hipóteses, vale também inserir mecanismos que prolonguem o tempo de atenção dedicada.

Como nada dura para sempre, a vida fora do celular pode chamar o usuário para outras responsabilidades como ir para a escola, para o trabalho, dar atenção à família ou capinar um lote. Quando o ciclo de atenção se quebra, a meta passa a ser a sua recaptura. Saiu do app? Peraí que lá vem uma notificação chamando de volta.

A captura da atenção pode ocorrer de várias maneiras, mas poucas são mais insidiosas do que a notificação. Ela sempre chega na hora errada. Você estava começando a ler um texto, a escrever alguma coisa e então ela aparece, geralmente atacando pelas laterais da tela ou se esgueirando no topo do visor. É um golpe rasteiro de quem te certeza que você vai olhar. E se olhar perdeu.

As notificações não estão sozinhas na disputa por sua atenção. Uma característica que prende o usuário no app é a massagem no ego proporcionada por curtidas, coraçõezinhos ou mãos estranhamente separadas do braço mas que ainda assim conseguem fazer o sinal de ok, o tradicional joinha. Todos estamos em busca de aprovação social e os aplicativos mais populares conseguiram um jeito de oferecer essa recompensa íntima em doses homeopáticas. Postou, ganhou.

Notificações e joinhas andam lado a lado com o poço sem fundo que são os apps de scroll infinito. A verdadeira consagração do “só termina quando acaba”. Quando é que termina o desfile de fotos e vídeos no feed do seu aplicativo favorito? Geralmente nunca. Salvo honrosas exceções que informam que “não há mais nada de novo para exibir”, a maioria dos apps aposta na dinâmica do feed sem fim.

Tim Wu, professor da Universidade de Columbia, chama as empresas que desenvolvem esses mecanismos de “mercadores da atenção”. Se a rotina faz o homem, as notificações, joinhas e scroll infinitos estão certamente nos moldando na busca incansável por audiência. Um efeito desse cansativo ciclo parece ser, paradoxalmente, o nosso permanente estado de desatenção. Com tanta informação disponível, e com tanta agressividade na sua disputa, estamos cada vez menos propensos a nos dedicar por longos períodos de tempo a uma só atividade. Estamos sempre desatentos. O tempo todo.

Não deixa de ser então curioso perceber que algumas das maiores empresas de tecnologia começaram a se mexer para dar mais controle ao usuário sobre o tempo gasto com o celular. Para usuários de celulares Apple a ironia é fina. Com o aumento do número de consumidores incomodados com a pouca duração da bateria, a empresa teve que atualizar o seu sistema operacional para informar quais apps estavam gastando mais energia dos iPhones. Mas só agora vai passar a informar quais são os apps que estão consumindo o tempo dos seus usuários. Parodiando Pessoa – que na verdade citava o general romano Pompeu – podemos dizer que: “Economizar a bateria é preciso. Viver não é preciso!”

As novas ferramentas que prometem conferir mais controle ao usuário sobre o seu tempo serão lançadas até o final do ano. Tal qual um oráculo, elas vão revelar hábitos que até então não conseguíamos quantificar. Quantas horas ficamos no Zap, nos jogos ou nas redes sociais? E, mais importante, o que faremos com esse conhecimento?

Talvez com esse controle, possamos usar melhor os próprios aplicativos, aproveitando com mais qualidade o tempo em que estamos conectados. Quem sabe até sejamos provocados a tomar atitudes drásticas como largar um pouco do celular depois se atingir a média de 2.617 toques na tela. Até onde sabemos, quando separados do celular as notificações não alcançam o nosso cérebro. Ainda.

Quem sabe você ainda poderá contar aos seus netos que, ao descobrir que gastava mais de nove horas na internet por dia – que é a média do brasileiro – encheu-se de coragem e, como dizia o poetinha, “sentindo que ia explodir em lágrimas, correu para a rua e pôs-se a andar sem saber para onde…”

Se estivesse vivo, Vinícius poderia até complementar: “Passado um tempo, se arrependeu e quis voltar. Nessa hora sentiu falta do Google Maps.”

Sobre o autor

Carlos Affonso é Diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio) e professor da Faculdade de Direito da UERJ.

Sobre o blog

A Internet e as novas tecnologias estão transformando as nossas vidas. Mas quem decide se a rede será um instrumento de liberdade ou de controle? Esse é um blog dedicado a explorar os impactos da inovação tecnológica, sempre de olho nos desafios nacionais e na experiência de diferentes países em tentar regular uma rede global. As fronteiras da tecnologia você lê aqui.

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